terça-feira, 10 de julho de 2012

Despedida radical

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Preparado?

Última semana de trabalho, chegou a hora das despedidas. Minha bandeira da África do Sul colecionava mensagens assinadas pelos meus companheiros de aventuras! A maior aventura de todas estava bem ali ao lado de onde eu estava morando. A apenas 20km do Monkeyland estava a  Bloukrans Bridge, imponente ponte arqueada que atravessa 450m sobre um surpreendente vale, bem na divisa das províncias de Western e Eastern Cape.  Lá se localiza o mais alto bungee jump comercial do mundo, Face Adrenalin, um salto de 216 metros em direção a um riacho pedregoso cujas corredeiras vão ferozmente em direção ao mar.

Mapa da região

Galera entrando no clima!
O meu último dia de trabalho não teve muito clima de despedida, afinal eu ainda ia ficar na fazenda uns dias antes de partir. A festa foi no dia seguinte, todos os voluntários foram liberados do trabalho para pular do tão temido bungy junto comigo! Lotamos dois carros e partimos pra lá. As únicas que não pularam foram a alemã, Farina, e a coroa italiana novata, Rosie. Ficaram lá assistindo de camarote no restaurante panorâmico do lugar a nossa emoção! Conseguimos um descontão por sermos voluntários do Monkeyland, os donos dos dois lugares se conheciam, além de estarmos em um grupo grande (7 pessoas).

O que nos espera lá embaixo



Fomos por uma trilha rápida até a plataforma de onde saltamos, que fica embaixo da ponte. Quem tem medo de altura começa a sofrer já no percurso até lá. A grade vazada em que pisamos proporciona um aperitivo do que nos espera lá embaixo. Mas a adrenalina é mais forte, ainda mais quando estamos em grupo. A música é alta e bem animada, vira uma festa em que os hits tocados são complementados pelos gritos de euforia e excitação a cada pulo.



Salto de 216m entre as nuvens

Chegou a minha vez, fui o segundo a pular. Estava chuviscando, havia uma neblina que encobria todo o vale. Fui amarrado pelos tornozelos, me apoiei no ombro dos instrutores e fui saltando feito saci-pererê até a beirada. Não tem mais jeito. A sensação de estar caindo em um precipício, como quando acordamos repentinamente de uma soneca em frente à TV, logo se transforma em uma alegria sem tamanho. O grito de medo ganha ares de excitação, como o de uma torcida vendo seu time ganhar um campeonato. A medida que eu ia atravessando as nuvens, a paisagem ia surgindo em meio a uma garoa que refrescava a alma. É muita adrenalina! Quando acaba, você fica alguns minutos de cabeça para baixo esperando o instrutor vir te resgatar de rapel. A primeira frase a ser dita pela maioria depois que volta é: “I wanna jump  again!!!” (Quero pular de novo!). Esse era o sétimo pulo da Emelia, a inglesa. Como ela já tinha muita experiência, eles a deixaram pular amarrada pelo tórax. Queria ter pulado dessa maneira, sair correndo até ficar sem chão e saltar no vazio... Foi sensacional!

Woohoo!
Já estou acostumado com o clima de despedidas. Mas lá tinham voluntários chegando e partindo a toda hora, isso renovava a atmosfera. Diferentemente dos meus intercâmbios de trabalho nos EUA, a excitação de chegar e a melancolia de partir foram períodos menos contrastantes. Na minha última semana chegaram duas voluntárias novas, a Yanna e a Joke (lê-se “iôca”). A Yanna é uma russa que mora em Nova York, viaja o mundo inteiro. Ela tinha acabado de voltar da Índia, Egito e estava indo escalar do Monte Kilimanjaro (o mais alto da África) na Tanzânia dali a poucas semanas. A Joke é belga, da parte flamenca, extremamente engraçada - assim como o seu nome (que em inglês, ao pé da letra, significa "piada"). Por ser a primeira semana delas e a minha última, tínhamos preferência na hora de pegar uma carona com a Kim para curtir as belezas da região. Fizemos um braai (churrasco) de boas vindas na fogueira. Fomos buscar mais lenha no mato no meio da madrugada, apostamos uma corrida até o Monkeyland na tentativa insana e frustrada de festejar com os macacos, desistimos e deitamos no meio da estrada sob o luar para escutar o barulho dos animais. Melhor despedida eu não poderia ter, sentindo o carater único daquela experiência.

Jantar de despedida no Market at Main, em Plett
Hora de arrumar a mala e levantar acampamento. Deixei tudo preparado para a partida no dia seguinte. Fomos curtir a noite em Plett... Jantar no Market at Main, sinuca e música no Flashback’s, animado banho de piscina noturno na casa da Gaelle (outra voluntária belga). Meu ônibus partiria somente de madrugada, teria que passar o dia inteiro em Plett. Voltei para pegar minhas coisas no Monkeyland, devolver meu uniforme e pegar minha carta de recomendação. Estava chovendo forte. Depois que despedi de todos, peguei minha capa de chuva e parti, olhando para trás de vez em quando. Aquela etapa já estava ficando pequenininha e distante. E o que vinha pela frente estava muito nublado ainda. No silêncio da madrugada, esperei meu ônibus 5 horas atrasado pacientemente no posto de gasolina. Deitei em uma mureta para ler um pouco e refletir sobre a jornada em que eu estava prestes a me lançar.


De volta à estrada...
Meu tão esperado mochilão iria começar, eu e minha mochila juntos nas estradas africanas. Montar um roteiro inicial não foi tão fácil. Voltar para Cape Town ou avançar para Jeffrey’s Bay? Essa era a dúvida. Como ainda não tinha companheiros de viagem com o mesmo itinerário que eu, resolvi encontrar os amigos que eu tinha feito pelo caminho. Isso me deu mais tranquilidade no início, além de poder conhecer de perto o estilo de vida local. Resolvi voltar para Cape Town para conhecer o que faltava e curtir com a brasileirada. Depois ainda queria visitar meus amigos sulafricanos nas suas cidades. As aulas já tinham voltado, fui convocado para as festas universitárias em Stellenbosch e Grahamstown. Fora isso, o mês que eu ainda tinha pela frente era um calendário em branco a ser preenchido pelo acaso. 



terça-feira, 22 de maio de 2012

Road trip na Garden Route

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Road trip

Os dias passavam devagar, ao contrário da proximidade da minha partida que se aproximava a passos de elefante desgovernado. Minha vontade de me aventurar pelas paisagens sulafricanas só aumentava. Seriam meus últimos dias de folga antes de cair de vez na estrada, rumo ao desconhecido! Já tinha conhecido bastante coisa ali da região, mas ainda havia muito a explorar. Eu e Chiara íamos pegar os mesmos days-off para alugar um carro e ir mais longe, fora do raio de alcance da nossa base – o Monkeyland. Logo, mais gente se animou e decidiu se juntar a nós. Kim e Farina pediram os mesmos dias livres e nós quatro decidimos ir a Wilderness (parque nacional a 100km de distância) no carro da Kim e dormir por lá. Não sei como deixaram quatro voluntários tirarem folga ao mesmo tempo. Coitada da Emelia, a inglesa, que se sentiu excluída e ficou sozinha em casa.

Check list da Garden Route
Depois de algum tempo isolado ali na fazenda, estava eufórico em por o pé na estrada novamente – mesmo que por apenas dois dias. Meu mochilão parecia deprimido ali no canto do armário, vazio por dentro. Depois de enchê-lo com toda a parafernália, voltamos a ser como Dean Moriarty e Sal Paradise – uma dupla sempre pronta to be back “On the Road”! Marylou também iria se aventurar conosco, faltava saber quem seria sua representante.

Vista de Knysna Lagoon
Partimos lá pelas 9h da manhã, tínhamos nos programado antes para aproveitar bem o tempo livre. A primeira parada foi em Knysna (lê-se "Náisna"). Tinha estado lá na semana anterior, fui o guia da vez. Levei-as direto ao mirante do East Head. É aquele tipo de lugar em que se chega sem muita expectativa, quando de repente: Wooowww!!! A melhor primeira impressão que se pode ter da cidade. Aquele cenário com penhascos enormes, como um portal entre a lagoa e o mar de águas quase fluorescentes, nos deixa hipnotizados. Fomos seguindo umas trilhas até as praias semi desertas que viamos lá em baixo. Não bastava contemplar o lugar. Tínhamos que sentí-lo, tocá-lo, experimentá-lo.

Praias escondidas entre os rochedos em The Heads, Knysna.
Pizza exótica, Caffe Mario.
Fomos almoçar no Waterfront, miniatura do famoso complexo em Cape Town. Liguei para o Mikail, meu amigo de lá, para pedir dica de um restaurante legal e convidá-lo para almoçar conosco. Para a sorte da Chiara, o escolhido foi um italiano – Caffe Mario. Ela poderia matar a saudade gastronômica da sua terra. Em meio a pizzas, saladas e espaguetes, a sensação foi a pizza à moda da casa que o Mikail pediu e recomendou. Os ingredientes eram abacate, banana, bacon, queijo e molho de tomate. A combinação não parecia tão convidativa para aceitarmos a sugestão. Mas depois experimentei uma fatia, até que não era tão estranho o sabor. Mandei embrulhar o que sobrou para viagem, muito bom!

Waterfront, Knysna.

Treino de water polo no meio do shopping
O ambiente era agradável, depois da sobremesa ficamos conversando e observando a paisagem. Estava tendo treinamento de polo aquático das crianças da antiga escola do Mikail, bem ali no meio do shopping center. Olhei as bandeirinhas de vários países  que faziam parte da decoração - ainda deviam ser resquícios da Copa do Mundo, pensei. Mas serviam muito bem para representar aquele momento multicultural. Brasil, Itália, Alemanha e África do Sul à mesa, comendo comida italiana; assistindo a uma partida de um jogo inglês com jogadores afrikaans, descentes de holandeses; em volta a belas paisagens do litoral africano, colonizado pela Holanda e Inglaterra àlguns séculos atrás.
Craft market em Knysna

Nos despedimos do Mikail e partimos. Antes de seguir para Wilderness, paramos em uma feira de artesanto na beira da estrada – um craft market, toda cidade tem algum. Dei uma volta rápida pelas barraquinhas, fugia dos vendedores grudentos. Não queria comprar nada, economizando dinheiro e espaço na mochila. Fiquei esperando as meninas na sombra de uma árvore, observando o cotidiano daquelas pessoas – esculpindo suas obras, fonte do seu sustento.


Wilderness vista da estrada
Pegar a estrada depois do almoço dá um sono! Pobre da Kim que foi dirigindo sem ninguém para conversar. Logo estávamos em meio às lagoas e florestas do Wilderness National Park, muito verde ao redor! No mapa, o nosso albergue (Wild Farm) não parecia longe do centro da cidade. Só que ele era no topo de uma montanha, a estradinha de terra adentrava a vegetação rumo ao cume. Quando a poeira que o carro levantava dava uma trégua, as paisagens já iam nos dando uma prévia da vista lá de cima. Fomos recompensados por uma vista de 360° da região; Oceano Índico, lagos, montanhas, animais, fazenda, natureza! Fizemos o check in, deixamos nossas coisas no quarto e partimos para uma praia ali perto, Victoria Bay.

Panorama do Wild Farm Backpackers
Vic Bay
Vic Bay, para os íntimos, é um famoso point de surf. Todas as atenções estão voltadas para as ondas, um clima bem North Shore – a famosa costa norte da ilha havaiana de Oahu, meca dos surfistas. Depois de ir descendo as montanhas pela estrada que serpenteia seu vale, chega-se a uma praia minúscula. O cenário é completado por um calçadão nas encostas das montanhas com algumas casas de veraneiro, um pier e um albergue com pub – uma vibe muito tranquila. Era final da tarde, o sol já estava atrás das monhanhas e o vento estava frio. Apreciamos a paisagem, demos um pulo no mar e fomos embora. Compramos alguns mantimentos na cidade e voltamos correndo para o Wild Farm, não podíamos perder o por do sol lá de cima.



Chuveiro com  direito a vista
Chegamos bem na hora, o crepúsculo estava perfeito para fotos irradiantes! Até do chuveiro dava para contemplar aquele visual. Nunca tinha tomado um banho vendo um por do sol daquele, talvez uma ducha em alguma praia do Hawaii. O sol se foi e o frio chegou. Vinho caiu bem para acompanhar o macarrão com molho de pózinho. Para descontrair começamos a jogar cartas, ensinei o Kings Cup para as meninas. Foi muito engraçado! Chiara não aguentou e passou a beber chá – virou a “Tea Loser”!




Vinho sul-africano
King's Cup
Chiara, "tea loser"!

Conhecemos uma alemã, Cláudia, que falava espanhol também. Ela é mais velha, disse que sempre passa longas temporadas viajando. Já morou na Argentina e esteve em Porto Alegre. Com a Farina ela falava em alemão, comigo e a Chiara em espanhol e inglês com todos. Ela foi dormir e depois voltou correndo falando que tinha uma aranha no quarto dela e não iria conseguir dormir sabendo que ela estava ali. Fui lá matar a aranha!

Quando as meninas decidiram ir para o quarto, não achamos a chave. A última vez que a vimos foi na cozinha, no jantar. Será que alguém tinha pego por engano? Tentamos lembrar de todos que passaram pela cozinha enquanto estávamos ali. Fomos acordar um por um para perguntar. No fim descobrimos que estava no quarto da alemã, tinha deixado lá quando fui matar a aranha. Fiz uma fogueira lá fora. O vinho, as estrelas, o fogo, o clima esquentou.

Café-da-manhã panorâmico
Tomamos um café da manhã reforçado na varanda panorâmica do bar, com direito a frutas orgânicas produzidas na fazenda. E o melhor, estava incluído na diária! Tínhamos um dia repleto de contato com a natureza pela frente. Fizemos o check out e peguei na recepção dois guias de mochileiros, Coast to Coast e Alternative Route, que foram muito úteis. Listavam todos os albergues das cidades no meu roteiro. Era só pesquisar lá, pedir dicas de outros viajantes, ou do staff dos hostels, e decidir para onde ir.

Alugamos nossas canoas na EdenAdventures, dentro do Wilderness National Park. Fomos remando rio acima em meio a um vale com floresta nativa, respirando a natureza com todos nossos sentidos! O curso d’água ia se estreitando e ficando cada vez mais raso, “estacionamos” nossa canoa nas pedras e pegamos a trilha para a cachoeira. A “trilha” era na verdade uma passarela de madeira suspensa entre as árvores, uma caminhada tranquila de meia hora na floresta. O filete d’água entre as pedras era insignificante, até que foram surgindo umas piscinas de coca-cola cada vez maiores e barulhentas. Chegamos às cachoeiras, imensos blocos de pedra represando águas escorregadias que pulavam de lá para cá. Piquenique na sombra, sonecas ensolaradas, mergulhos arrepiantes, paz na mente.







Parecia que estávamos fora por uma semana e foram só dois dias. Voltamos para a rotina de voluntários no Monkeyland, os macaquinhos estavam com saudades. Minha última semana de trabalho ia ser intensa: duas voluntárias novas, visita das crianças guiada por mim, aventuras, planejamento, caledário, decisões, despedidas...

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domingo, 22 de abril de 2012

Forasteiro no litoral

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Dias de folga chegando, resolvi me programar para aproveitar mais o curto tempo livre que tinha fora da fazenda. Combinei com o Mikail, amigo afrikaans de Knysna (lê-se “náisna”) que conheci no ônibus, que iria para lá conhecer sua cidade. Pedi dica de um hostel legal para ficar, mas ele disse para não me preocupar com isso. Antes de partir para lá, fui com as meninas visitar nossos pesados vizinhos no Elephants Sanctuary – santuário de elefantes literalmente ao lado de casa.

Gaelle, Chiara, elefante, treinador, Farina e eu.
Passeado de "mãos dadas" com a elefanta! hahah
Os elefantes que lá vivem, são provenientes do Kruger National Park – uma das maiores e a mais famosa reserva de vida selvagem do continente africano. São animais rejeitados pelo seu grupo, que não sobreviveriam sozinhos na selva. No santuário, vivem soltos e são treinados para conviver com os humanos e agradar aos turistas. Segundo o treinador, não são obrigados a fazer isso, só o fazem para receber agrados como recompensa – amendoim, por exemplo.  Pudemos passear de “mãos dadas” com eles pela floresta, dar de comer, assistir a truques – como chacoalhar a cabeça – e, para quem pagasse uma taxa maior, seria possível até pegar uma carona em cima deles! Fui uniformizado com a camisa do Paquidermes F.C., meu time do coração na PUC Minas, para tirar foto com o verdadeiro mascote da equipe!!

Taxi rank em Knysna
Saindo de lá, fui direto para Plett de minibus taxi pegar uma “conexão” para Knysna. Os minibus param em um taxi rank, tipo um estacionamento onde é possível arrumar condução para vários destinos. Os taxi ranks são lugares singulares, ótimos para absorver o cotidiano da população local! Dignos de um post detalhado, prometo escrever um texto dedicado só aos meios de transporte locais! Enfim, lá peguei um taxi para meu destino. Esse era tipo um taxi mesmo, não uma van. Para partir logo, tive que pagar pelos assentos livres. Como essa rota não tem um fluxo grande de passageiros, iria ficar esperando eternamente que o taxi enchesse.  Eram 20 rands por pessoa (R$5), a viagem de meia hora saiu pelo preço normal de uma corrida de taxi aqui no Brasil. O motorista e a outra passageira foram o caminho inteiro falando em xhosa, não entendia nada daquela língua cheia de cliques! Peguei meu guia Lonely Planet para consultar o dicionário de frases úteis. Saindo do carro, disse: “Enkosi”!

Entrada da Knysna Lagoon vista do East Head
Knysna se parece com as outras cidades da região: bem cuidada, turística e afrikaans. Mas meu guia lá era um amigo local, pude conhecer de perto o estilo de vida deles! Chegando lá, Mikail me levou direto para East Head - um mirante em cima de um penhasco onde é possível ter uma vista incrível da cidade e da Lagoa de Knysna se encontrando com o mar, surreal! Em meio àquele visual todo, encontramos umas amigas dele que iriam estar no pub que iríamos mais tarde - gostei daquele lugar! Almoçamos e fomos a uma praia fora da cidade, Buffels Baai (ou Buffalo Bay). Um vilarejo praiano, com lindas casas de veraneio e ambiente bem familiar. Um refúgio dos locais e surfistas quando a região é tomada por turistas na alta temporada. Aproveitei para ter umas aulas de afrikaans com Mikail, tinha que aprender umas frases úteis para usar mais tarde com as nativas:
Buffels Baai

- Hallo! (Oi!)
- Hoe gaan dit? (Tudo bom?)
- Dis lekker! (Beleza!)   
- Wat is jou naam? (Qual seu nome?)
- Jy is mooi! (Você é bonita!)
- Dankie! (Obrigado!)

A mãe dele estava fazendo jantar para gente, finalmente ia ter uma refeição digna naquele país! Após o jantar, ainda assisti ao noticiário local e a uma telenovela – em afrikaans!!! Conversei muito com a mãe dele (que é professora desse idioma), Amanda, discutimos sobre as diferenças e semelhanças das realidades de nossos países – foi bem legal! No final, depois de algumas taças de vinho, ela já estava falando em afrikaans comigo – fingi que entendia tudo!

Noitada teen em Knysna
Partimos então para a noitada. Como a alta temporada já tinha passado, estava tudo muito vazio – além de estar chuviscando! Mas era o último final de semana antes da volta às aulas da garotada, toda a juventude de Knysna decidiu se reunir no mesmo bar – o Zanzibar. Digo juventude para não falar pirralhada, ou - como eles dizem – youngsters. Como se o elenco todo de High School Musical, ou outro filme do gênero, estivesse lá! Só consegui manter uma conversa com uma menina que estava morando na Inglaterra e outra de origem indiana que estudava em Grahamstown, na mesma universidade que a Jeannine – minha roommate no Monkeyland. Segunda vez que a regra das 3 pessoas no mundo (eu, você e algum amigo em comum) se confirma: descobri depois que elas moravam na mesma residência estudantil! Tentei usar as frases que tinha aprendido na praia, elas acharam engraçado, mas não deu muito certo. Cidade pequena, todos se conheciam, geral reunida no mesmo lugar, todo mundo no “0x0”!

Fim de festa na piscina
No fim da festa, as coisas pareciam ter melhorado! Fomos levar outras duas meninas em casa, ambas estudavam em Stellenbosch – mesma universidade que o Mikail. A casa – ou melhor, mansão - era em um condomínio na Theasen Island, bairro residencial em uma ilha da Knysna Lagoon. Estava calor e elas nos convidaram para tomar banho de piscina. Eram duas da manhã e os pais da dona da casa estavam dormindo – opa! A vista era maravilhosa, parecia que a piscina e a lagoa eram uma coisa só, além do penhasco (East Head) cheio de mansões bem na nossa frente! Mal entramos na piscina e começamos a conversar, a mãe da menina saiu na varanda e expulsou a gente de lá! Saímos todos molhados, catando nossas coisas e demos o fora - parecia cena de filme adolescente!!

Simplesmente não acreditava que poderia ter entrado dessa maneira dentro da vida social deles. Por mais que não me sentisse pertencente àquilo, pude viver um pouco dessa realidade  e aprender com a experiência. Somente se colocando no lugar do outro, deixando de lado nossas verdades, podemos entender e respeitar outras culturas e diferentes pontos de vista. Aquela tinha sido a primeira vez, mas não a última, que isso ocorreu na viagem – me senti um forasteiro, não um simples turista. Essas imersões dentro de outras culturas merecem um texto só para elas. Mas antes de começar a filosofar, ainda tem muita história para contar...

domingo, 15 de abril de 2012

"Fugere Urbem"

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Como foi bom viver no campo tendo macacos, pássaros e elefantes como vizinhos! Sentar no balanço na árvore em frente de casa no final da tarde, sentir o vento no rosto enquanto observava as cores do céu, o verde das plantas, o barulho dos animais e a simplicidade da vida. Paz, tranquilidade, harmonia com a natureza! Era o que eu estava buscando ao ir para o continente africano, fugir da civilização como os poetas árcades e os personagens dos livros que tinha lido (ver dicas de leitura viajante no fim do primeiro post)!

Vizinhança
Bom dia, Tsitsikamma!

Os dias passavam devagar, suficiente para fazer coisas que não temos tempo na agitada rotina das cidades grandes. Acordar cedo, tomar o café da manhã com calma, dar “Buongiorno” para a Chiara, ir caminhando lentamente para o trabalho contemplando aquele clima bucólico do interior sulafricano, falando “morning!” para todos pelo caminho. No fim do dia às vezes pegávamos carona na carroceria da bakkie. Quando ela ia em direção à fazenda, corríamos atrás da velha caminhonete sem porta para chegar mais cedo em casa!

Pressa para quê?! Com certeza não era para assistir TV, checar emails ou entrar no Facebook. Essas modernidades não estavam disponíveis, também não faziam falta! Ao invés disso, o tempo era aproveitado para lavar roupa, fazer o jantar e preparar o almoço que levaria para o trabalho no dia seguinte. Depois dos afazeres domésticos, ai sim podíamos relaxar!

Voltando de carona
Cooking time!
Bater papo, jogar baralho, assistir filmes no notebook, ler livros, eram os meios rotineiros de distração. O cansaço batia cedo, às dez da noite era difícil ter alguém ainda acordado! Mas sair da rotina às vezes também é bom! Como estávamos meio isolados na fazenda, a 20km de Plett, na maioria das vezes nos divertíamos por lá mesmo. Seguindo à tradição sulafricana, sempre rolava um braai (churrasco) em volta da fogueira.

Fogo!
Caipirinha!

Braai
Festa!

Dia de braai era sempre um acontecimento muito esperado. Cada um tinha uma função e assim que chegávamos do trabalho os preparativos começavam. Buscar lenha, fazer a fogueira, preparar caipirinha e brigadeiro; descobri talentos que nem imaginava que tinha! Cada um colocava na grelha o que iria comer. Tinha de tudo, de bife à beringela. Jeannine e Emelia eram as DJs, a seleção de músicas incluía até reggae sulafricano com algumas músicas em xhosa - da banda Tidal Waves (para ver clipe, clique aqui), muito boa por sinal! Mas uma música que sempre me fará lembrar desses momentos é “5 years time” de Noah and the Whale, principalmente o trecho a seguir:



'Cause I'll be laughing at all your silly little jokes
And we'll be laughing about how we used to smoke
All those stupid little ciggarettes and drink stupid wine
'Cause it was what we needed to have a good time

And it was fun, fun, fun
When we were drinking
It was fun, fun, fun
When we were drunk
And it was fun, fun, fun
When we were laughing
It was fun, fun, fun
Oh, it was fun

Oh well, I look at you and say: "it's the happiest I have ever been!"
And I'll say: "I no longer feel I have to be James Dean."
And she'll say: "yeah, well, I feel pretty happy too,
and I'm always pretty happy when I'm just kicking back with you."

Praia!
A nossa sorte é que tínhamos duas voluntárias sulafricanas com carro, Kim e Jeannine. Então podíamos dividir o dinheiro da gasolina e ir à praia ou jantar em Plett de vez em quando. Como já não estava mais na alta temporada (que é nas férias de natal e ano novo dos sulafricanos), a vida noturna lá estava bem fraca. Mas mesmo assim íamos jogar uma sinuca e tomar uma cerveja antes de voltar para casa! Em dias muito quentes saíamos correndo do trabalho rumo à praia! As mais próximas eram Keurbooms e Nature’s Valley. Depois que a Jeannine foi embora, as vagas no carro da Kim ficaram muito disputadas!


Baixa temporada
Sinuca!

Diversão dos locais...
O único modo de ir da fazenda para Plett, sem carona, era ligar para o motorista do minibus taxi ir nos buscar lá. Demorava pelo menos uma hora até ele chegar, antes tinha que encher a van na comunidade ao lado para seguir viagem. Todos na van já nos conheciam, os voluntários do Monkeyland eram respeitados na Kurland Village. A maioria dos funcionários do santuário moram lá, sendo uma das maiores fontes de emprego local. Sempre fomos bem recebidos e nos faziam sentir em casa dentro da sua realidade. A comunidade era bem organizada, não um amontoado de barracos como algumas aqui no Brasil. Ruas de terra delimitadas, algumas casas boas e outras nem tanto, crianças brincando nas ruas, como qualquer bairro mais carente.


... e a nossa também!
O bar mais perto da fazenda fica ali, o Toks. Os bares das townships (as favelas deles) são chamados de shebeens e, geralmente, são a única forma de diversão dos moradores dessas comunidades. Éramos celebridades no local, ou aberrações – sei lá! Quando chegávamos, todos olhavam para nós. Mas não de uma maneira intimidadora, e sim com curiosidade. Muitos vinham conversar conosco, saber de onde éramos, se estávamos gostando do país deles, contavam casos, como era a dura vida durante o apartheid, etc. A maioria estava bebendo desde cedo, então estavam bem sociáveis! A competição na mesa de sinuca era bem acirrada, nem me atreveria a tentar uma disputa com os profissionais! A música da jukebox sempre alta e bem animada. Nossos colegas de trabalho vinham dançar com a gente, muito divertido e engraçado! A bebida era bem barata, a cerveja de 1L lá era o mesmo preço da long neck na cidade (12 rands, em torno de R$3). Sempre passávamos na shebeen para comprar suprimentos para nossos braais. Descia do carro descalço, cumprimentando todo mundo, me sentia em casa!

Como meus dias de folga não eram junto com nenhuma das motoristas, tinha que me programar para aproveitar o tempo livre que eu tinha para conhecer o lugar direito. Geralmente os days off se resumem a ir cedo para Plett, pegar uma praia na cidade mesmo (era bem bonita), entrar na internet em algum cyber cafe ou restaurante com wi-fi, comprar mantimentos para a semana toda no supermercado (Checkers e Spar são mais perto de onde a van sai; Pick’n Pay é maior, embora mais longe) e correr para não perder o último minibus taxi para a Kurland Village – que sai às 16h em dias de semana e às 14h nos finais de semana!! Como meus dias livres eram às sextas e sábados, teria sempre que voltar cedo para casa e não ia conseguir aproveitar muito.

Dia de praia em Plett
No primeiro final de semana foi isso que ocorreu, tinha acabado de chegar e ainda não sabia direito como as coisas funcionavam. Até tentei alugar um carro com a Chiara. Não sairia muito caro (pouco mais de 200 rands a diária, menos de R$60), mas tinha que ter feito reserva antes. As próximas oportunidades para explorar a região não poderiam ser despediçadas! O mês que passaria ali estava passando e havia ainda muito o que conhecer no pouco tempo livre que eu tinha. A semana seguinte teria que ser mais proveitosa...


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